A morte do ex-presidente Tancredo Neves completa, hoje, 41 anos. Ele ganhou projeção como o grande artífice da transição do sistema de poder no país – da ditadura militar para um governo civil, mas foi traído por doenças insidiosas e entrou para a História como um mito. Foi o último presidente da República eleito por via indireta no chamado Colégio Eleitoral, um clube fechado de delegados partidários, mas nele entrou com a missão e o compromisso de destruí-lo, restaurando em seu lugar as eleições diretas e devolvendo o Brasil à plenitude do Estado de Direito. Derrotou Paulo Maluf, do PDS, representante da ditadura, mas não teve saúde para assumir o cargo. Passou 38 dias agonizando em hospital de São Paulo e se submeteu a sete intervenções cirúrgicas, despertando correntes de oração e sentimentos de comoção por todo o país. No dia 15 de janeiro de 1985, Tancredo (PMDB) derrotou Maluf, mas no dia 14 de março, às vésperas da posse, sofreu fortes dores abdominais que o levaram a ser hospitalizado. O diagnóstico final foi de “septicemia generalizada”, e no lugar de Tancredo subiu a rampa do Planalto José Sarney, o vice, um dissidente do PDS e do regime militar. Tancredo foi sepultado em São João Del-Rey, Minas Gerais, sua cidade natal, onde nascera a quatro de março de 1910.
Político remanescente do lendário PSD, escola de líderes matreiros e habilidosos, Tancredo de Almeida Neves esteve presente em momentos decisivos da história do Brasil por mais de 50 anos. Foi figura de destaque já no governo de Getúlio Vargas e na década de 60 tornou-se primeiro-ministro em meio ao arremedo de Parlamentarismo que foi tentado no país como condição imposta por militares para que João Goulart assumisse a presidência da República, que estava desocupada com a renúncia de Jânio Quadros. O Parlamentarismo foi dissolvido e um referendo popular reinstituiu o Presidencialismo. Tancredo reapareceu na cena em plena ditadura, atuando como deputado federal, depois senador, pelo então PMDB, alinhado aos moderados do partido mas afinado com o presidente nacional da legenda, Ulysses Guimarães. Em 1982, foi eleito governador de Minas Gerais, quando da restauração das diretas nos Estados. Com sua projeção política e experiência legislativa, credenciou-se, naturalmente, a ser o candidato do PMDB ao Planalto para derrotar o PDS. Embora a eleição fosse indireta, teve apoio popular e procurou dar essa conotação à campanha desencadeada entre os eleitores ainda privados do direito ao voto.
Elio Gaspari, no volume 5, intitulado “A Ditadura Acabada”, da sua coletânea sobre a longa noite das trevas, instaurada em 1964 e que durou 21 anos, descreve Tancredo como um homem miúdo, gentil e fala pausada. Preferia ouvir. Ao telefone, nem isso. Na adolescência, tentara ser engenheiro, oficial da Marinha e médico mas terminara advogado. Vinha da elite política mineira, da qual trazia lances do seu folclore. Quando ouviu um amigo dizer que agiria de uma forma e “o resto” de outra, ensinou-lhe: “Nunca diga o resto, mas “os demais”. E quando um colega de partido telefonou à noite dizendo que depois de uma reunião haviam cortado um trecho de um documento e precisavam consulta-lo, respondeu: “Para cortar, não precisa me consultar”. Diz Elio Gaspari: “Esse folclore era um verniz. Tancredo vivera uma parte da história do Brasil e a conhecia toda, como poucos”.
Tancredo estava na oposição desde 1964, mas de 1930 até a deposição de João Goulart passara apenas seis anos como oposicionista em Minas Gerais. Na sua vida pública, vira divisões e tragédias, aprendendo com elas o que há de fugaz nas paixões políticas. Dizia que “se o Maquiavel vivesse nos dias de hoje, não passaria de um vereador”. Em 1983, Tancredo era o político oposicionista com mais experiência administrativa. A sua morte frustrou tanto o país que em torno dela surgiram inúmeras teorias conspiratórias, inclusive, uma delas sustentando a hipótese de assassinato do ex-presidente da República. O país, também, frustrou-se com a ascensão de José Sarney, um remanescente da ditadura e expoente de oligarquia política no Maranhão, com tentáculos no Amapá. Sarney deslanchou no início do governo ao lançar o Plano Cruzado, que previa congelamento de preços e tarifas. Mas o Plano tinha furos na sua concepção e o resultado foi a volta da inflação em grande escala. Em todo caso, Sarney respeitou compromissos de Tancredo e contribuiu para que a transição democrática se completasse com as eleições diretas de 1989, que consagraram Fernando Collor de Mello. Que acabou sofrendo “impeachment”. Mas esta é outra história.
Escreveu o Jornalista Nonato Guedes
Fonte: Polêmica Paraíba