Auxílio Emergencial 'segurou' queda ainda maior do PIB no 2º trimestre - BLOG DO GERALDO ANDRADE

terça-feira, 1 de setembro de 2020

Auxílio Emergencial 'segurou' queda ainda maior do PIB no 2º trimestre

 Hilderlania Alves e sua mãe, Luciana Nunes, já receberam quatro parcelas do Auxílio — Foto: Arquivo pessoal

Com aumento do desemprego e queda de renda por conta da pandemia do novo coronavírus, o brasileiro foi obrigado a cortar gastos. A família de Hilderlania Alves, contudo, faz parte de um grupo que sentiu efeitos contrários: sua renda dobrou e permitiu a compra de roupas, calçados, produtos de limpeza e até adquirir pacote de dados de internet no celular.

O fenômeno tem nome e sobrenome: Auxílio Emergencial. Foi ele o principal responsável por recompor a renda perdida de 60 milhões de pequenos empresários, liberais e profissionais informais, e por dar gás para o consumo, principal motor da economia brasileira.

Até agora, o programa tem aprovadas 5 parcelas de R$ 600 para cada beneficiário (mães chefes de família recebem parcelas de R$ 1,2 mil). Outras 4 parcelas de R$ 300 foram anunciadas nesta terça-feira (1º) pelo presidente Jair Bolsonaro, e devem ser oficializadas por Medida Provisória.

Para economistas ouvidos pelo G1ainda que o benefício não tenha sido suficiente para reverter a queda de 9,7% do PIB neste segundo trimestre de 2020, o tombo seria bem maior se não houvesse a transferência de renda.

Cálculo feito pela MB Associados a pedido do G1 mostra que a queda do PIB neste trimestre sem o Auxílio Emergencial poderia chegar a 18,2%. Em suas previsões, a consultoria esperava uma queda de 11,7% no período – uma diferença, portanto, de 6,5 pontos percentuais.

"Os programas de auxílio de renda ajudaram a manter certo padrão de consumo, especialmente das classes mais baixas de renda", diz o economista-chefe da MB Associados, Sérgio Vale.

"Se, em 2008, houve discussão sobre um uso mais agressivo de política monetária, dessa vez não havia alternativa a não ser o uso também agressivo da política fiscal", afirma.

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Ainda que tenha amortecido a queda, o auxílio teve ação limitada no período pelo fechamento da economia. Abril ficou marcado como mês mais difícil da crise não só pela redução de renda, mas pelo impedimento da produção pelas medidas de isolamento social para combater a disseminação da Covid-19.

Mesmo em maio e junho, quando fábricas e lojas começaram uma lenta reabertura, os ganhos setoriais foram desbalanceados. Ganhos do varejo foram mais consistentes que indústria e serviços.

Principalmente no primeiro mês, mas também nos demais, a renda extra foi encaminhada para bens essenciais, como alimentos e farmácias, e parte extrapolou para pequenos reparos da casa, em materiais de construção, e renovação do ambiente doméstico, como eletrônicos e eletrodomésticos.

Sem uma ingerência maior do isolamento, a expectativa é de que os efeitos das injeções de recursos sobre o consumo fiquem mais claras no terceiro trimestre.

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Ganho real

Como mostrou reportagem do G1 em agosto, o auxílio aumentou a massa agregada de rendimentos do brasileiro em 2,1%, segundo cálculos da FGV, e evitou que mais de 30 milhões de pessoas caíssem para baixo da linha de pobreza e diminuiu índices de desigualdade.

Na prática, os efeitos se mostram no exemplo de Hilderlania Alves: a estudante de 27 anos viu sua qualidade de vida melhorar desde abril, quando os rendimentos da casa subiram de R$ 1,3 mil para R$ 2,5 mil por mês.

Bolsista de um curso pré-vestibular, Hilderlania mora com a mãe, Luciana, e o pai, Arcádio, em Iguatu, interior do Ceará. Luciana Nunes tem 50 anos, é dona de casa e agricultora. A família deixou de receber o Bolsa Família quando tiveram acesso à aposentadoria por invalidez do pai, Arcádio Bezerra, de 55 anos, há mais de quatro anos.

Cada uma recebe R$ 600 do auxílio e já tiveram depositadas quatro parcelas do benefício.

“Melhorou bastante a nossa vida em vários aspectos. Estamos pagando as contas em dia, como luz e gás, que antes era bem difícil de conseguir. E estamos conseguindo comprar produtos que antes seriam inviáveis, além de melhorar a variedade de alimentos”, diz Hilderlania.

A estudante conta que sua família deixou de depender da disponibilidade dos medicamentos em postos de saúde e colocou na cesta de compras produtos de beleza, como cremes e maquiagens. O dinheiro também foi usado para manter os estudos, com novos materiais escolares e o novo plano de internet móvel no celular.

“Nossa alimentação tinha basicamente carboidratos e proteínas de valor mais acessível como frango, ovos e carne moída. Agora, temos uma alimentação mais saudável, com carne de primeira, fígado, queijo, costela bovina, linguiças, peixes e vegetais”, afirma.

Ainda que o futuro do programa esteja incerto, a família de Hilderlania tem consciência de que o auxílio, no modelo atual, vai acabar. Em um esforço extra, fazem o possível para guardar ao menos 10% da renda repassada pelo governo.

“Sabíamos que não seria por muito tempo. Pode ser que a vida fique pior, por conta das fragilidades econômicas geradas pela pandemia. Mas minha mãe está esperando que um novo programa social de renda seja implantado”, diz.

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Futuro complicado

Mesmo com renda mais alta, sobra de dinheiro é privilégio. Um levantamento do Instituto Brasileiro de Economia da Fundação Getulio Vargas (Ibre/FGV) mostra que o Auxílio Emergencial chega a representar 97% da renda de camadas mais pobres da população.

"Mesmo assumindo um relevante aumento do orçamento do Bolsa Família, o fim do auxílio gerará grandes perdas para as camadas mais vulneráveis da população, que dependerá mais da recuperação do mercado de trabalho", afirma o economista Daniel Duque, pesquisador responsável pelo levantamento.

Os agricultores Antonia Raimunda Vieira de Paula e Antonio Vieira de Paula, ambos de 50 anos, estão neste grupo.

Antonia Raimunda Vieira de Paula e Antonio Vieira de Paula viram a renda dobrar com o pagamento do Auxílio — Foto: Arquivo pessoal

Antonia Raimunda Vieira de Paula e Antonio Vieira de Paula viram a renda dobrar com o pagamento do Auxílio — Foto: Arquivo pessoal

Antonia é beneficiária do Bolsa Família e recebia R$ 247 antes da pandemia. Antonio tirava, em média, R$ 400 por mês com a venda de polpas de frutas também em Iguatu, interior do Ceará. Com a pandemia, as vendas ficaram inviáveis, mas, desde abril, a renda subiu para R$ 1,2 mil.

Com os ganhos em dobro, o casal deixou os crediários e partiu para pagamentos à vista. Conseguiram também quitar dívidas antigas. “Era impossível fazer uma compra grande que desse para o mês. Agora, dá”, diz Antonio.

O agricultor conta que não passa mais aperto para pagar as contas de água, luz e gás, mas confessa que tem medo de o auxílio acabar. Além de um mercado de trabalho que não voltou a funcionar, teme que ele, a mulher e a filha de 21 anos, que têm doenças crônicas, sejam obrigadas a se arriscar em meio à pandemia.

“O jeito vai ser se virar, voltar a comprar menos. Seria ótimo que o auxílio fosse prorrogado por mais tempo”, afirma.

Agenda fiscal

Para o economista Paulo Feldmann, professor da FEA USP, casos como o de Antonio e Antonia são justificativa suficiente para que o Auxílio Emergencial se prolongasse até o fim da crise.

O alto custo fiscal do programa, diz ele, é reflexo de um erro de focalização, em que beneficiários que não estão no grupo mais essencial de assistência tiveram acesso aos repasses.

"É um erro grave 'achar' 20 milhões de invisíveis. Isso provocou um rombo fiscal que não deveria existir. O governo precisaria consertar isso logo e o auxílio deveria ser direcionado para quem realmente necessita", afirma o economista.

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O futuro do programa e a dificuldade de manter programas de incentivo são motivos de um braço de ferro entre Jair Bolsonaro e o ministro da Economia, Paulo Guedes.

O presidente, que experimentou um aumento de popularidade ao resgatar os rendimentos dos mais vulneráveis, pressiona para que o novo Renda Brasil, programa que substitui o Bolsa Família, tenha valor de parcelas mais alto que o proposto pela equipe econômica.

Enquanto as discussões não terminam, o Auxílio Emergencial vai sendo empurrado até o fim de 2020, gerando mais impacto no déficit primário. O programa tem custo de R$ 50 bilhões por mês.

"O auxílio atendeu a sua finalidade principal, mas talvez fosse interessante ter um mecanismo de saída gradual mais desenhado. O ideal seria já ter começado para que pudesse ser feito sem um custo fiscal maior", diz Thais Zara, economista-sênior da LCA Consultores.

Bolsonaro pressiona por mais gastos pois conquistou potenciais eleitores de regiões em que tinha poucos simpatizantes. Um estudo recente, desenvolvido pelos economistas Ecio Costa e Marcelo Freire, da Universidade Federal de Pernambuco (UFPE), mostra que o impacto econômico do Auxílio Emergencial beneficiou especialmente estados do Norte e Nordeste.

No Nordeste, onde Bolsonaro teve os menores índices de votação em 2018, o impacto é, em média, de 6,5% do PIB de 2019, mais que o dobro do peso nacional, de 2,5%. O estado mais beneficiado é o Maranhão, com 8,6%.

No ranking do impacto por estados, os seis primeiros colocados são do Nordeste. Por outro lado, apesar de o estado de São Paulo ser o maior recebedor, em termos nominais, quando comparado com o tamanho da sua economia, ele fica em 25º lugar.

“Em alguns municípios das regiões menos desenvolvidas, o Auxílio Emergencial trouxe a sensação de que a crise econômica da Covid-19 não impôs consequências negativas. As injeções de recursos livres na economia fazem com que o consumo aconteça, o comércio não demita, a indústria continue produzindo e serviços sejam demandados”, explica Costa.

Dos 60 milhões de beneficiários, contudo, o novo Renda Brasil deve atender apenas 20 milhões. E o valor deve ficar abaixo dos R$ 600. Sobram 40 milhões de pessoas em uma economia que ainda patina.

TOMBO DO PIB NO SEGUNDO TRIMESTRE


Fonte: G1